Clone
OS PERIGOS DA CLONAGEM
Há alguns anos eu mudei de canal e parei num programa onde um jornalista gorducho esbravejava contra tudo, com argumentos que mostravam uma falta de embasamento absurda. Pensei "Meu Deus, que pobreza! Será que esse canal não tinha coisa melhor para arrumar?". Cheguei a dar um apelido que fazia um trocadilho com o nome do tal jornalista: "Dá Pena", pois achava que dava pena ver alguém tão despreparado comandando um programa que se dizia jornalístico.
Mas, algum tempo depois, descobri que o tal jornalista havia tido o contrato renovado por 200 mil reais e descobri que ele estava longe de ser alvo de pena, mas de revolta. Num país onde temos tantos bons jornalistas, particularmente nas rádios, a TV insiste em nos brindar com ratinhos e seus suscedâneos. O tal jornalista, inaugurou um estilo que se tornou marca registrada desse tipo de programa de notícias locais, geralmente com cunho sensacionalista: interromper os repórteres. Não importa o que o repórter estiver falando ou a importância da notícia, mas o "âncora" tem que interrompê-lo nem que seja para dizer "você que está assistindo ao jornal tal, preste atenção ao que o fulano está falando" e, em seguida, devolver a palavra ao repórter. Somente para interrompê-lo novamente mais adiante.
Essa moda rapidamente se espalhou, criando um novo monstro chamado Luciano Faccioli. Esse interrompe tanto os repórteres que ainda estou para ver um dia ele dizer "fulano, um momentinho que eu preciso te interromper senão eu morro de coceira. Pronto, pode voltar a falar..."
Recentemente, uma pessoa me explicou uma teoria de porque a qualidade musical caiu tanto nos últimos tempos. Achei a teoria interessante e acho que se aplica a várias outras coisas. O plano real jogou no mercado consumidor uma imensa população que antes estava na miséria e não tinha acesso à compra de CDs, TVs, etc. Isso criou um mercado enorme formado por pessoas com baixíssimo nível de instrução, baixíssimo nível cultural (que independe da instrução) e agora com capacidade de consumo. Isso explica a imensa quantidade de propagandas das Casas Bahia, Lojas Marabraz, etc. voltadas a esse público. Como o mercado fonográfico, as emissoras de TV viram o potencial de consumo desse público e passaram a dar o que eles queriam: TV da mais baixa qualidade.
Foi assim que o programa de um João Kleber durou tanto tempo. Para quem não sabe, esse programa só perdeu espaço na TV por falta de patrocinadores (nenhuma empresa queria associar seu nome ao programa) e não por falta de audiência, que era até alta para uma RedeTV.
O triste é ver que esse público de baixo nível cultural passou a determinar a programação da maioria das emissoras de TV. Quase todas criaram programas jornalisticos de final de tarde com alguém esbravejando contra tudo e contra todos, brigando ao vivo com entrevistados, criando bordões como os comediantes criam, etc.
Recentemente, numa das minhas zapeadas pelos canais, passo na Record e vejo uma figura MUITO parecida fisicamente com o jornalista gorducho do início do meu texto. Mas ainda! Sua postura, gestos e até o modo como falava eram uma clara imitação do jornalista (agora em outra emissora concorrente). Trata-se de Geraldo Luís (isso mesmo, sem sobrenome), a nova "atração" da emissora. Chacrinha já dizia que na TV nada se cria, tudo se copia. Mas o triste é ver que só se copia o que é ruim. É a clonagem no que tem de mais perigoso.
Numa emissora que tem um jornalista como Celso Zucatelli, um exemplo de postura, elegância e bom humor, por que trazer (sei lá de onde), um clone do que eu considero uma das piores influências no jornalismo brasileiro dos últimos tempos.
Há alguns anos o Canal 21 (pertencente à Rede Bandeirantes) tinha um jornal local com o mesmo Celso Zucatelli e, logo em seguida, um nacional com, nada menos que José Paulo de Andrade, um icone do jornalismo brasileiro. Eu não perdia esses dois jornais por nada. Um belo dia, a emissora encerrou os jornais e passou a trasmitir enlatados...
Eu até acho que deveria existir sim um programa jornalístico voltado para pessoas mais simples, com uma linguagem mais acessível. Mas o problema é que, ao invés desse tipo de programa ficar restrito a uma emissora mais popular, ele se espalhou pela TV brasileira como uma epidemia. Deixando a uma parcela da população somente uma alternativa: os canais fechados de notícias. Com isso, quase toda emissora aberta lançou seu canal de notícias: Globo, Band e agora Record têm a sua versão "news" para um público MUITO restrito (já que a TV a cabo no Brasil é caríssima). E com um agravante: Você não tem opção. Se assina a NET você não tem como ter BandNews. Se assina TVA não tem como ter GlloboNews...
E assim vai o nível dos programas jornalísticos brasileiros, descendo a ladeira em direção ao seu modelo inicial: o (graças a Deus) extinto "O Povo na TV".
Escrito por Mau_Mau às 12h04
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